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Café com Nietzsche

Hoje pela manhã encontrei Nietzsche para tomarmos juntos um café. Apesar de bastante ranzinza e muitas vezes rude, ele ainda continua sendo uma das minhas principais referências quando o assunto é viver. Retomamos uma conversa que tivemos há vários anos sobre coisas além do bem e do mal.

Eu lhe dizia o como foi doloroso para mim largar o consultório bem sucedido em Vitória e me aventurar numa terra distante, em condições péssimas de trabalho, humilhação e dificuldades em todas as dimensões, tudo em busca de um ideal por muito tempo ansiado. Nietzsche pausa suas goladas do café. Põe a xícara sobre o pires. Passa a mão no bigode. Olha para mim com cara de quem ouviu o óbvio e diz: “Quem alcança seu ideal, precisamente com isso o ultrapassa”[1]. Ficamos alguns minutos em silêncio depois dessa, enquanto meus pensamentos se debruçavam sobre essa curta inefável sentença. O óbvio seria dizer que o mestre acertara uma vez mais. Quando nos dispomos a lutar pelo que queremos é preciso preparar botas grossas, as quais protejam bem os pés e cujo material não se desgaste tão facilmente, já que a trajetória poderá ser longa, desgastante, dura, e terrivelmente dolorosa. A trajetória tem poder selecionador. Me lanço sobre ela com temor em níveis altos. Ainda que com o sentimento ancestral de ser tragado por um predador, corro o risco da variação. A trajetória então implanta em mim aquilo que eu não tinha. Através da dor, cresço. Pelo sofrimento, aprimoro minha força. Coragem passa a ser minha palavra de ordem, minha pedra angular. “Na Escola Bélica da Vida — O que não me mata me torna mais forte”[2] me diz Nietzsche, como se estivesse lendo as páginas de meus pensamentos soltas ao ar do meu interior. Inevitavelmente me assusto com sua precisão e continuo paralisado pelos atos verbais de sua sabedoria, inteligência e perspicácia.

“Certo, Nietzsche. Isto significa, então, que tornar-me-ei – em certa medida – melhor do que sou quando atravesso vales, quando uso o sofrimento ao meu favor, quando olho para o caminho selecionador a partir de uma perspectiva refinadora, aperfeiçoadora” — concluo, enquanto o mestre reenche sua xícara de café com semblante de tédio e início de impaciência. Talvez, por mais sentido que possa haver na minha pretensa conclusão, o filósofo do martelo me lembra sobre uma característica crucial da vida: “As consequências de nossas ações agarram-nos pelo topete, muito indiferentes ao fato de que entrementes tenhamos nos tornado ‘melhores’”[3]. De novo me ponho em silêncio. Lembrei-me então de um professor universitário, psicólogo norte-americano de origens britânicas, não muito amado dentro de sua área – tal como o próprio Nietzsche – afirmando veementemente sobre o poder das consequências sobre o comportamento humano, sobre a vida, e a seleção daquilo que somos ocorrendo a todo instante, a despeito de nosso suposto querer.

Ora, inegável é afirmar que tornar-me-ei melhor, mais forte, mais corajoso quando altero meu olhar sobre aquilo que me faz sofrer – sobre a vida; quando descubro o valor intrínseco do sofrimento. Esta talvez seja uma das tarefas mais complexas e difíceis da trajetória. Sofrer dói demais. A dor é infligida através dos sentidos. “Dos sentidos, somente, provém toda credibilidade, toda consciência tranquila, toda evidência de verdade”[4], me lembra Nietzsche, aparentemente mais calmo, com o bigode amarelado pelas manchas do café escuro. Isto significa então que, por mais que a vida seja dolorosa, não devo fugir da dor. Devo senti-la. Observá-la. Analisá-la. Dela extrair minha resistência. A partir dela traçar meu percurso de força, luta, e raiva, raiva que me levanta e me afirma.

“É chegada a minha hora, benquisto mestre. Preciso ir. Viajo na quinta pela manhã a trabalho, e minha mala ainda não está pronta. Refletirei sobre os axiomas que me presenteou nesta manhã. Há tempo eu deles precisava. Obrigado” — disse eu com verdadeira gratidão. – “Um procura um parteiro para suas ideias, o outro, a quem possa ajudar: assim começa um bom diálogo!”[5], me disse levantando a xícara como se me desejasse saúde. Isso, saúde! Dor, saúde… Mas talvez esse seja o tópico para um outro café.

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Notas:

[1] Aforismo 73 da quarta parte “Ditos e Interlúdios”, p. 92, Nietzsche, F. (2012). Além do Bem e do Mal. Porto Alegre: L&PM.

[2] Aforismo 8 da primeira parte “Máximas e Flechas”, p. 9, Nietzsche, F. (2006). Crepúsculo dos Ídolos. São Paulo: Companhia das Letras.

[3] Aforismo 179 da quarta parte “Ditos e Interlúdios”, p. 107, Nietzsche, F. (2012). Além do Bem e do Mal. Porto Alegre: L&PM.

[4] Aforismo 134 da quarta parte “Ditos e Interlúdios”, p. 101, Nietzsche, F. (2012). Além do Bem e do Mal. Porto Alegre: L&PM.

[5] Aforismo 136 da quarta parte “Ditos e Interlúdios”, p. 101, Nietzsche, F. (2012). Além do Bem e do Mal. Porto Alegre: L&PM.

Imagem da capa: “When Nietzsche Wept” (Versão em Filme).

Escrito por Tiago

Psicólogo clínico, PhD student na Escócia (University of Glasgow), amante de leitura, jazz, arte, viagem, conversas, histórias, gargalhadas. Tudo isso com café.

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